sexta-feira, 31 de março de 2017

O jogo de "bobinho" da seleção de Tite






No dicionário, o significado de “posse” quer dizer: estado de quem possui uma coisa, de quem a detém como sua ou tem o gozo dela. Simplificando, posse nada mais é que ter controle sobre determinado objeto.

Em perspectivas futebolísticas, ter a “posse” significa controlar a bola, tomá-la para si. No entanto, matematicamente isso é tão difícil que um estudo feito por um analista de desempenho mostrou que passamos 99% sem tocar na bola, e 98,5% corremos sem ela. 

Levando em conta esses números, posse de bola nada mais é que a capacidade que uma equipe tem para executar maior número de toques nela. Ou seja, é entregar a bola a um companheiro evitando perder a posse.

Para isso acontecer, não basta apenas trocar passes para sua porcentagem subir, porque, assim como Guardiola revelou, você tem que passar a bola com uma intenção clara e com o objetivo de chegar ao gol adversário, não é apenas uma questão de passar por passar.

Caso contrário, todas as equipes poderiam ser capazes de passar a bola sem grandes dificuldades. Por isso, é necessário que cada jogador esteja na posição certa para receber a bola, é uma questão de coordenação entre o passador e o recebedor, criando conexões simples em posições complexas.

O Brasil demorou a similar a importância da posse de bola, embora o nosso país seja o que mais procurava ter o controle, mas isso se perdeu. Clubes e seleções europeias foram se qualificando e entendendo o valor da posse, porém os clubes não evoluíram e a seleção consequentemente não evoluiu.

Foi preciso que a Alemanha mostrasse isso e fizesse com que os clubes percebessem que posse de bola, ás vezes, pode ser sinônimo de vitória.

No caso da seleção brasileira, uma equipe bem menos qualificada foi quem assumiu a responsabilidade de clarear as ideias dos brasileiros de que algo precisava mudar na sua forma de jogar futebol.

A chegada de Tite deu uma nova cara ao Brasil que entendeu rapidamente os conceitos do futebol atual baseando-se na posse de bola.

A seleção do treinador gaúcho passou a ter mais a posse de bola apresentando aspectos do jogo apoiado, triangulações e compactação no ataque, como fez nesses dois últimos jogos pela Eliminatória




Como vemos nas imagens, a seleção brasileira sempre busca a aproximação para dar continuidade a suas jogadas até chegar ao outro lado do campo: primeiro com o jogo apoiado desde a saída de bola, e a outra com compactação, com todos os jogadores de linha no campo ofensivo do adversário.

E porque a seleção de Tite procura esses movimentos? Simples. Para não perder a bola. E para isso, o Brasil precisa jogar “bobinho”, realizar passes com maior segurança possível mesmo que esteja em meio ao adversário.

E todos esses movimentos e intenções da seleção estão surtindo efeito na Eliminatórias já que a equipe de Tite é a que detém os maiores números de passes por jogo, obtendo mais de 400 passes por partida.

No jogo contra o Uruguai, por exemplo, foram 490 passes contra apenas 191 dos Uruguaios, e o êxito dos passes foram de 82,5%. No jogo contra o Paraguai os números também são bastante elevados: 437 passes certos contra 179 dos paraguaios. O êxito dos passes brasileiros foram de 88,6%.

O êxito nos passes é o que mais chama a atenção na seleção porque o volume de passes certos é apenas uma definição tática da equipe que escolheu ter a bola, mas a precisão desses passes é a verdadeira medida de qualidade.

Principalmente quando essa precisão de passes são superiores no campo de ataque, lugar do qual se encontra a maior dificuldade em manter a posse de bola.  No jogo contra os uruguaios, por exemplo, o Brasil executou 73% dos passes certos no ataque. Contra o Paraguai, a porcentagem foi ainda maior: 83,3%. 



No vídeo acima feito pela Painel Tático, demonstra claramente como e de que forma a seleção mantém a posse de bola no campo de ataque: muita triangulação, movimentação e compactação.

O mais importante da equipe canarinho é que a preservação da posse de bola não é algo estéril. Ou seja, é o Brasil fazendo com que seus adversários corram atrás da bola, a equipe de Tite realiza o jogo de “bobinho” com seus comandados fazendo a bola correr de um lado para o outro enquanto o oponente tenta toma-la.


Mike Hughes, um analista do Centro de Desempenho do Instituto da Universidade do País de Gales, por exemplo, iria aprovar essa nova seleção levando em conta seus estudos feitas em 2001 onde comprovou que equipes com habilidade para dar mais passes efetivos é a base do êxito de uma equipe.

Só que mais do que isso, a seleção busca não apenas os passes, mas principalmente não perder a bola uma vez que equipes que perdem mais a bola tem aproximadamente 47,7% dos jogos derrotados. Em contrapartida, em apenas 28,4% das partidas as equipes que perdem menos a bola saem derrotados.

É claro que cada equipe possui suas estratégias para usar melhor aquilo que tem. Há equipes que preferem a bola, como a seleção brasileira, e outras que se sentem à vontade sem ela, como a seleção uruguaia. No futebol, não cabe apenas copiar o que tá dando certa a uma outra equipe, porque o mundo futebolístico é pluralista.

Porém, a seleção brasileira de Tite que há tempos não se encontrava tão bem dentro de campo, hoje o seu comandante quer ser “arquiteto”, construir um modelo de jogo, fazer o estilo do escrete canarinho ser a posse de bola e o domínio.  


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O jogo que não aconteceu

O gol fantasma de Valdez

Desde que as regras de futebol foram inventadas pelos estudantes de Cambridge não conhecemos esse esporte sendo praticado por menos que onze jogadores. No entanto, em 1973 durante a ditadura Chilena, essa regra mudou.

Esse jogo foi realizado no dia 21 de setembro de 1973 no Estádio Nacional de Santiago, onde a seleção chilena jogou sem um adversário do outro lado do campo. Assim, os jogadores tiveram que ir trocando passes até chegar ao gol e se classificarem à Copa do Mundo do ano seguinte.

“Foi a maior estupidez que já vi na vida. Entramos em campo sem adversário à frente. O juiz apitou. Nós fizemos o gol e o juiz confirmou”.  Explicou Carlos Caszely, ex jogador do Colo-Colo e seleção chilena.

Isso aconteceu por conta de um golpe militar que durou 17 anos e derrubou o governo socialista de Salvador Allande para introduzir o governo de Pinochet.

Devido ao golpe, o Chile teve de jogar um play off contra uma seleção europeia para poder ir ao mundial que seria realizado na Alemanha Ocidental, e o rival era a URSS.

A primeira partida foi em Moscou e terminou com um empate heroico dos sul-americanos sem gols.

No entanto, na segunda partida entre essas seleções, as notícias sobre a brutalidade daquela ditadura foram se espalhando pelo mundo. O Estádio Nacional de Santiago estava sendo usado como campo de detenção tortura enquanto jogos aconteciam no gramado.

Considerando o Estádio Nacional “manchado de sangue”, a União Soviética se recusou a jogar no local e exigiu que a FIFA transferisse a partida das eliminatórias em um outro estádio latino americano.

No entanto, a FIFA se recusou a transferir o jogo de estádio e obrigou a seleção chilena a entrar em campo sem adversário, e a Rússia perderia a partida logo no primeiro gol do Chile depois de várias trocas de passe entre quatro jogadores até gol.




Após a recusa, a União Soviética lançou uma nota repudiando a atitude da FIFA acusando-a de ignorar o que estava ocorrendo no Chile.  E assim, pela primeira vez a União Soviética ficava de fora do Mundial

Caszely conta que o escritor Pesoa Véliz descreveu o ocorrido através do comportamento do público no estádio.

“Eu estava naquele estádio junto com mais de 300 mil pessoas, mas tinha um setor vazio. Quando marcaram o gol, eles seguiram rumo àquele setor onde não tinha ninguém. Todos acharam estranho, menos eu. Eu sabia que estavam dedicando o gol aos que deviam estar ali”, lembra o jogador.

Além disso, outro fato marcou a carreira de Caszely quando a sua mãe foi detida e torturada antes do mundial: o jogador se recusou a apertar as mãos de Pinochet quando este lhe estendeu as mãos.

O ex jogador começou a fazer história a partir daí. Ele foi expulso na estreia do Chile no mundial. E não compareceu ao terceiro jogo do Chile contra a Austrália.

Ainda em 1974, a situação no Chile entrou no Estádio Olímpico de Berlim cuja torcida começou a entoar um canto que dizia: Chile si, junta no, e ainda conseguiram entrar no campo com uma bandeira que alertava a situação.  



As mudanças de Antonio Conte no Chelsea

Quando Antonio Conte foi anunciado pelo Chelsea em abril do ano passado, o entusiasmo da torcida dos Blues ficou claro. Principalmente com uma possibilidade de novo técnico italiano poder reerguer uma equipe que estava passando por dificuldades não seu estilo de jogo com um futebol pragmático e de pouca variação tática.

O ânimo dos torcedores não era para menos. Antonio Conté encerrado sua passagem pela seleção italiana onde conseguiu leva-la até como quartas de final da Eurocopa contra a Alemanha e demonstre uma aula de tática com muita organização depois de ser contestada pela sua falta de qualidade individual, especialmente pela ausência de jogadores como Marchisio , Verrati, Giovinco, Montolivo e Pirlo, aposentado da seleção.

Na ocasião, Conte foi visto pelos jornalistas como um técnico pragmático e já imaginava um Chelsea com uma formação com três zagueiros e muito defensivo.

Mas uma ideia, obviamente, não era acertada, uma vez que durante toda a sua carreira o técnico italiano demonstrou ser bastante versátil em relação aos esquemas de jogos. Exemplo de uma versão em português da Eurocopa que acompanha um campo com uma formação adaptada às dificuldades das partidas.

Ou, então, o próprio Chelsea que cometeu os seus jogos em um novo comendo com um 4-1-4-1. Porém, o começo não foi nada fácil e os problemas continuaram com um Chelsea previsível e dependente de Hazard.

O Chelsea era dominado por seus rivais que oferecem poucos tempos eo tempo londrino tinha dificuldades em trocar passes e a deficiência na defesa era absurda.

Mas a situação do Chelsea foi mudando depois que Conte passou a usar um pragmático 3-4-3 no jogo contra Arsenal onde a disputa já foi 3 a 0 para os Gunners.

O esquema, aliás, foi importante para David Luiz, zagueiro contestado por sempre desproteger o sistema defensivo por se lançar demais para o ataque foi contemplado com uma formação de três zagueiros por ter mais liberdade para lançar e aproveitar os seus passes em direção ao ataque do Chelsea. 

Função muito usada no futebol que usa os seus zagueiros para fazer uma saída curta dos seus tempos, no entanto, naquela época como equipas marcou por um encaixe (cada um pega o seu), diferentemente do Chelsea de Conte que se defende com uma linha de cinco formando um 5-4-1.


A formação dos cinco zagueiros, inclusive, havia sido sepultada até o final deste século, mas foi renascido nos últimos anos e um dos grandes responsáveis por isso foi Antonio Conte que introduziu o esquema na Juventus, muito mais por necessidade do que preferência, mas que foi muito promissor na equipe italiana e na seleção italiana, com uma boa campanha frente a uma equipe limitada.

O sucesso do esquema do time londrino está sendo tão grande que vem conquistando cada vez mais adeptos do “velho-novo” estilo. Aqui no Brasil, o exemplo maior é o Santos de Dorival Junior que pensa em mudar o esquema da equipe praiana num 5-4-1.

Mas não é apenas o esquema que está dando alegria aos torcedores e resultados à equipe, a recuperação de jogadores como Diego Costa, Hazard e Pedro está contribuindo muito para a campanha de um Chelsea avassalador na liga mais disputada do mundo.

Diego Costa foi duramente criticado durante a era Mourinho, principalmente por muitos considerarem que seu peso estava acima do ideal. Mas com a chegada de Conte e seu rigor na alimentação dos atletas, o centro avante recuperou a boa forma e segue sendo cada vez mais uma máquina de fazer gols.

Já o atacante espanhol, Pedro, chegou ao Chelsea e não tinha demonstrado muito futebol, tanto que havia perdido espaço e Willian era titular absoluto. Hoje, Willian é banco e Pedro vem sendo cada vez mais importante demonstrando oportunismo e boas movimentações pelos lados.

Hazard, o craque do time, também havia passado por uma fase apagada antes de Conte e vivia de críticas constantes sob o comando de José Mourinho. No entanto, após a mudança no comando da equipe, o belga vem demonstrando seu melhor futebol.

Isso tudo porque o técnico italiano percebeu que Hazard fixo por um lado do campo era desperdício de talento, e resolveu “soltar” o atacante para que ele pudesse aparecer por todos os setores do campo e ser um problema para as defesas adversárias, tanto que é o jogador que mais dribla na Premier League.

Tudo isso só está colaborando para que o Chelsea venha crescendo com uma defesa sólida e um ataque eficiente graças ao seu técnico que soube ser cauteloso quando precisava e chegar num grau de compatibilidade com seus comandados em relação às suas ideias

City e o Futebol Líquido

O jogo entre Manchester City e Tottenham pela Premier League foi um dos mais eletrizantes da final de semana no campeonato mais aclamado do mundo.

O jogo entre Manchester City e Tottenham pela Premier League foi um dos mais eletrizantes desse final de semana no campeonato mais aclamado do mundo.

O time de Londres conseguiu arrancar um empate após estar perdendo por 2 a 0 para o time de Guardiola, que conseguiu sufocar os Spurs e quase viu o empate escapar após entrada de Gabriel Jesus que colocou fogo no jogo.

Mas a partida entre essas duas equipes não mostrou apenas o sufoco do City e a capacidade do Tottenham em buscar o resultado, mas também um dos conceitos que vem se formando cada vez mais no futebol moderno: o futebol líquido.

A ideia desse novo conceito foi trazida pelo jornalista Martí Perarnau que significa um futebol jogado com cada vez mais intensidade, valorizando a posse de bola, sendo os toques na bola cada vez mais veloz com passes verticais e, ao perder a posse, uma resposta rápida pressionando o adversário para recuperá-la logo em seguida.



E foi exatamente isso que o Manchester City de Guardiola fez durante todo o 1º tempo. Conseguiram “amassar” os visitantes impondo um ritmo eletrizante pressionando o adversário na saída de bola e na perda dela, tendo passes verticais através de triangulações e aproveitando os passes em profundidade para Aguero.

O City logo no começo do 1º tempo já criava um “caos organizado” no seu campo de ataque atrapalhando a saída de bola do Tottenham, uma das virtudes do time de Pochettino que também sentia dificuldades na defesa com as investidas do ataque dos Citizens.

A pressão na saída de bola, aliás, está cada vez mais forte nas ideias dos clubes porque a importância de se errar menos na defesa está sendo muito mais relevante. Um erro na saída de bola custa caro devido a essa pressão constante dos times bloqueando a área do rival.


O Manchester defendia com muita ferocidade e atacava aceleradamente tentando confundir uma das melhores defesas da Premier, que só não foi para o vestiário com um placar desfavorável por causa da ineficiência do City nas finalizações.

A busca durante todo o primeiro tempo era de trocar passes e ficar cada vez menos com a bola, coisa que diferencia esse City em relação ao Barcelona de Guardiola que não se importava com o tempo com a posse.

Isso tudo é porque o futebol mudou e ficou cada vez mais intenso e com menos espaços, sendo assim, os times tentam intensificar a posse de bola ficando menos tempo com ela.

Porém, o que seria o futebol líquido? Um trecho de uma conversa do ex preparador físico do Barcelona, Paco Seirul.lo, pode explicar: Quando um líquido esquenta, as partículas se movem mais e se organizam de uma determinada maneira ou de outra em função de elementos que aparecem nas características desse líquido.

O que Paco quis dizer nessa frase é simplesmente que uma equipe que troca passes e se movimenta intensamente assume formas diferentes durante toda a partida que o adversário se desnorteia e tem dificuldades em acompanhar.

Isso acontece muito com Joachim Löw, técnico da Alemanha, Tuchel, do Borussia Dortmund, Jürgen Klopp, do Liverpool e Antônio Conte, do Chelsea.

E esse conceito vem ganhando cada vez mais espaços, inclusive com Guardiola que quer seu City cada vez mais com fluidez no jogo e o mínimo de erros possíveis beirando à perfeição.

Ou seja, é o futebol trabalhando com mais intensidade os seus treinamentos e a importância física ganhando maior relevância para que os jogadores suportem o nível de exigência do futebol atual para poderem “liquidificar” o jogo.